Artigos · 01 de fevereiro de 2021

Liderança na Pandemia — Sairemos Imunes?

Rodrigo Brant

Liderança em tempos de crise e incerteza

Qual a influência da atuação dos líderes sobre as pessoas?

A pandemia do coronavírus nos testou todos os dias, toda hora, todo minuto. E você pode até ter achado que o seu poder, a sua vida, o seu histórico iria te proteger... ledo engano. Ser líder é um grande desafio; numa crise como essa, nem se fala.

Se você é mãe, pai de família, CEO de uma grande empresa ou chefe de estado, saiba que em momentos assim a sua liderança causará ainda mais impacto.

Ninguém estava preparado para viver uma situação como a atual. O que se vive hoje é diferente de tudo que já aconteceu. Há muitas comparações com períodos de guerra, mas o que vivemos agora é uma guerra invisível contra um inimigo imprevisível e que não conseguimos ver. Essa grande adversidade é inédita.

E quando se iniciou o processo de vacinação em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil, o maior teste de todos se apresentou: o teste da imunidade.

Não pense você que é somente estar imune ao vírus — é sim estar imune à avaliação, à percepção das pessoas, cidadãos, colaboradores, amigos e familiares sobre a sua forma de liderar, de se comportar, enquanto durou e durará essa crise avassaladora.

Se a sua preocupação nesta crise é com a sua imagem, com que as suas opiniões sejam vistas como as certas, e até agora continua agindo assim, já lhe digo que é bastante provável que ler esse texto não ajudará você. Afinal, você já sabe de tudo, não é mesmo?

Quem age assim vai na contramão dos relacionamentos interpessoais. Esse tipo de atitude é egoísta e extremamente desmotivante em qualquer ambiente, seja ele no âmbito profissional ou não.

Este artigo é para aqueles que pretendem ser líderes de verdade, autênticos, que realmente se importam com as pessoas ao seu redor. É para aqueles que não querem o poder pelo poder — querem realmente construir um estado, um país, uma empresa, uma família... mais humanizados.

As perguntas que ficam

O momento que deveria ter nos obrigado a ficar em isolamento, ou pelo menos a manter um distanciamento social, mostra que somos vulneráveis, precisamos do outro e, especialmente, que a constância da vida é mudança e adaptação.

Mas como lidamos com tudo isso? Exatamente assim: fazendo perguntas e buscando respostas que possam gerar aprendizado para enfrentar os desafios, sejam eles já conhecidos ou não.

E talvez a principal pergunta: as minhas atitudes e reações diante de cada situação estão colocando as pessoas em risco?

Se você realmente é um líder, fazer esse tipo de questionamento já faz parte da sua rotina. A diferença, num momento pandêmico, é que tudo isso — a instabilidade e a incerteza — gera desequilíbrio e até um colapso não só de saúde física, mas, principalmente, de saúde emocional.

Poder e autoridade

Além de muita conversa e reflexão sobre os desafios presentes, busco na leitura inspiração para nos ajudar a viver, sobreviver e conviver com harmonia e paz. Dois dos livros que sempre recomendo nesses momentos são "O Monge e o Executivo" e sua sequência, "De Volta ao Mosteiro" — clássicos sobre liderança que, mesmo diante do ineditismo dessa crise, nos trazem de volta ao básico.

O monge ensina que a função maior de um líder é servir seus colaboradores, e que ele precisa saber a diferença entre poder e autoridade. O primeiro é uma faculdade; o segundo, uma habilidade.

Poder é a faculdade que alguém tem, por causa de seu cargo ou posição, de forçar ou coagir os outros a cumprirem sua vontade, ainda que preferissem não o fazer. Há momentos em que o líder tem que recorrer a ele — desde que se lembre que está atendendo uma necessidade legítima, e use o poder de maneira criteriosa e comedida, na busca pelo bem comum, não só de suas necessidades pessoais.

Quando o poder é usado para manipular, dominar e controlar as pessoas — sejam elas crianças, empregados, cônjuges, clientes, alunos — começam a surgir péssimos indicadores: rebeldia, mentira, baixo comprometimento, desgaste nas relações, moral baixa, falta de confiança, conflitos, rotatividade.

O estilo de liderança baseado em poder estraga as relações e torna-se insustentável ao longo do tempo. As pessoas vão lhe obedecer até conseguirem se livrar de você.

"Estou convencido de que é exatamente assim que se começa uma liderança servidora. Não quando entramos em nossos direitos de liderança, mas sim quando entramos em nossas responsabilidades de liderança." — Simeão, o Monge

Em "De Volta ao Mosteiro", há um teste aplicado a grandes treinadores esportivos que se encaixa bem aqui: os seus colaboradores melhoraram — não só nas habilidades do "jogo", mas como seres humanos — por terem passado uma temporada com você? Estão sendo promovidos, solicitados por outras empresas? Ou estão pedindo para sair?

Se quer saber como está se saindo como líder, a resposta está nas pessoas que você lidera. Basta observá-las com a devida atenção.

Ganha-ganha

Para finalizar, recomendo também "Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes" — especificamente o hábito de pensar sempre no ganha-ganha, ainda mais relevante durante a pandemia.

Quando estamos nos relacionando ou fazendo um negócio, as duas partes precisam obter o valor justo naquela interação. Duas pessoas que têm o hábito do ganha-perde alcançarão sempre um resultado negativo, sem a menor possibilidade de consenso — e criam um clima organizacional de disputa, onde a prática é derrubar o outro.

Imagine o dono de uma empresa que decide abrir num feriado importante para vender mais, obrigando os funcionários a trabalhar. Pode até dar lucro no curto prazo — mas o colaborador que teve o descanso tirado carrega essa consequência, e ela se acumula se a prática se repete.

O hábito do ganha-ganha pode e deve considerar o lucro, sem deixar de considerar outros fatores. Se você deixar seu colaborador aproveitar o feriado, perde o lucro de um dia fraco, mas ganha alguém mais descansado e motivado para vender mais no dia seguinte.

Essa pandemia deixou evidente que os líderes precisam pensar menos no eu e mais no nós. O ganha-ganha tem de ser mais que um hábito — deve ser um princípio para todas as interações pessoais.

Essa situação extrema não vem de hoje. Acontece que aquilo que parecia distante está aí, batendo na sua porta todo dia, toda hora.

Você acredita que ainda há espaço para o mundo girar em volta de umbigos?

Como você vai ser avaliado por seus colaboradores, familiares e cidadãos? As suas atitudes vão passar no teste do coronavírus? De solidariedade? De humanidade?

Depois de pensar em tudo isso, será que você passa nesse teste? Será que sairá imune?

A resposta, como o coronavírus, não é vista a olho nu.

Se esse texto te fez pensar sobre a sua forma de liderar, podemos conversar.

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